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Produtos de outros países representam 22,3% de tudo que é consumido no Brasil
Postado em: 22/03/2014 por Guido Denipotti
A participação de produtos importados no consumo do país disparou e atingiu 22,3% em 2013, o maior índice desde 1996. No último ano ainda foi mais barato importar peças, componentes e produtos acabados. Tanto que, pela primeira vez em 18 anos, o valor dos insumos adquiridos em outros países foi maior do que o das vendas externas da indústria de transformação. O chamado coeficiente de exportações líquidas, que calcula essa diferença, ficou negativo em 0,1%. Os dados constam de publicação divulgada nessa terça-feira pela Confederação Nacional da Indústria (CNI).

“O coeficiente aponta que a indústria de transformação passou a gerar receitas com exportação menores do que os gastos com insumos importados”, revelou o estudo, realizado em parceria com a Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior (Funcex). Para o gerente-executivo de Pesquisa e Competitividade da CNI, Renato da Fonseca, o levantamento mostra a perda de competitividade da indústria nacional no mercado global. “O setor está cada vez mais focado em manter sua posição no mercado doméstico”, explicou Fonseca.

Não à toa, a balança comercial da indústria está deficitária em mais de US$ 100 bilhões e coloca em risco o desempenho anual do país, que pode fechar o ano com saldo negativo. Isso ainda não ocorreu porque as exportações brasileiras de commodities, sobretudo soja e minério de ferro, compensam o desempenho desastroso dos produtos manufaturados nacionais no mercado internacional.

Este ano, contudo, as exportações do complexo soja (grão, farelo e óleo) foram estimadas em US$ 27,56 bilhões, uma queda de 11% na comparação com o recorde da temporada passada, segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove). A entidade ainda reduziu em US$ 200 milhões a sua estimativa das divisas geradas pelas exportações do complexo na comparação com o relatório do mês passado, por conta da expectativa de um volume menor do que se previa em fevereiro.

“Felizmente, temos as commodities para segurar a balança comercial, porque o Brasil está em processo de desindustrialização. O custo de se produzir no país está cada vez mais alto. É preferível comprar lá fora do que encarar a carga tributária, as exigências burocráticas e a falta de infraestrutura logística”, observou o vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), Fábio Martins Faria.

Apesar de em 2013 o real ter se desvalorizado 15% em relação ao dólar, o Custo Brasil se elevou e as importações continuaram sendo uma alternativa mais barata, ressaltou Faria. “Esse quadro deve se manter enquanto não houver uma reforma tributária e investimentos consistentes em infraestrutura. Se nada mudar, não vai valer a pena nem montar produtos no Brasil, e sim comprar os itens acabados”, destacou. O coordenador do curso de relações internacionais do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais de Minas Gerais (Ibmec/MG) e doutor em economia, Reginaldo Nogueira, reforça que os números são reflexos de um setor fraco, com perda relativa, pouco competitivo e que não consegue ganhar mercado lá fora. Outro agravante é a penetração de importados ter aumentado mesmo diante de uma desvalorização do real. “Tudo que se vê é que o produto importado continua mais barato que o nacional”, argumenta.

Dentro do Custo Brasil, o economista da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) Alexandre Brito destaca os encargos financeiros e logísticos, principais entraves para as exportações. “O resultado é mais importação, a chegada de mais insumos, mas por outro lado menos competitividade.”

O varejo já vem optando pela importação de produtos acabados há muito tempo, de acordo com o economista da Confederação Nacional do Comércio (CNC) Fabio Bentes. Nunca se comprou tanto carro importado, apesar de o governo ter aumentando o imposto de importação em 30 pontos percentuais na tentativa de melhorar a concorrência com os veículos montados no país. “O comércio recorreu às importações e isso ajudou a segurar a inflação”, disse.

Na ponta dessa cadeia estão os lojistas, que têm nos importados grande parte do seu faturamento. De acordo com fontes do mercado, desde a retomada do dólar o aumento chega a 30% nesses itens. Na Casa Rio Verde, a gerente-geral Renata Andrade revela aumento médio de 10% nos preços e uma redução nos custos para evitar o repasse da alta aos clientes. Eloísa Rabelo, proprietária do Empório Paraíso, conta que para continuar atendendo o público com vinhos de qualidade e sem reajustes tem procurado mudar fornecedores.